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Minha estante
um mundo literário

20 anos e uma paixão: Ler. Aqui você encontrará resenhas dos livros que li entre diálogos animados sobre como driblo meu curso de Direito e a minha predileção por romances, filmes e séries. Divirta-se!
Cachinhos Vermelhos
terça-feira, 6 de janeiro de 2015 @ 14:52

E aqui estou de volta pros meus contos. Esse é especial. 
É a história da Maria Eduarda e do Bernardo.

A lua cheia iluminava e era refletida pelo mar naquela noite, o horizonte parecia infinito. Bernardo apertava o volante nos dois minutos que parou o carro para admirar a paisagem, mesmo sendo um valorizador nato das festas e do ócio semanal de vídeo game ele nunca deixaria de apreciar a vista de Copacabana a qualquer hora do dia.

Seu celular toca fazendo o porta luvas vibrar incessantemente, ele até pensa em ignorar a chamada no exato momento em que o lembrete de que poderia ser a Maria Eduarda vem em sua mente. Então, seus dedos rolam na tela do aparelho e ele sorri com a foto dela no visor.

- Fala aí, Duda! – Responde animado antes que ela diga qualquer palavra.

Maria Eduarda, do outro lado da linha, fica sorridente quando sente o entusiasmo dele.

- Oi, Bê – Diz – Estava pensando em fazer um programa mais tranquilo essa noite, o que acha? Tô cansada de ter que sair te carregando das festas e ficar despistando vadia.

- Nossa, Duda, essas foram as palavras de uma verdadeira dama! – Ele ri de sua própria ironia, seus olhos brilham ao imaginar Eduarda atrás da linha.

- Por que você não vai se f...?

- Epa, calma! Era brincadeira, marrentinha! Onde a gente se encontra, linda? – Bernardo adora cutucar onça com vara curta, mas por trás do implicância sempre há admiração.

E sim, ele admirava Maria Eduarda e sua personalidade forte, suas mechas vermelhas, sua pele branca e alva, seus olhos azuis da cor do mar de Copacabana...

Eles eram pré-adolescentes quando se conheceram. Estudaram na mesma escola, frequentavam os mesmos lugares e tinham os mesmos gostos. Nessa época, Maria Eduarda tinha os cabelos castanhos e virgens, mas sempre teve a língua afiada e andava enfurnada entre os garotos. Bernardo odiava como eles tratavam Duda, como se ela fosse uma mulher qualquer e estivesse ali no meio deles apenas para pegar homem. Só Bernardo via o que realmente Eduarda sofria. A rejeição dos pais, os problemas com os irmãos, a crescente busca por um porto seguro. E ela achou esse porto seguro nele, que a acolheu como seu semelhante e nunca a tratou com frescuras. Eles faziam quase tudo juntos, eram amigos, companheiros e juntos choravam suas dores.

Duda teve que aguentar a pegação geral do Bernardo com os hormônios em ebulição e os ciúmes das pseudo-namoradas. Ela nunca se importou realmente, eles tinham uma ligação muito maior do que uma pegação qualquer com alguém aleatório. Bernardo também não gostava quando Maria Eduarda arrumava caras na balada e sempre ficava rodeando e sondando terreno até que ele tivesse certeza das intenções do rapaz ocasional.

Até hoje, eles nunca tiveram problemas. Até certa noite, eles quase nunca pensaram um no outro de maneira diferente do que como amigos. É claro que Bernardo ficou muito satisfeito com as curvas que surgiam em Duda com o tempo e ela também tirava casquinha do corpo definido dele. Mas tudo não passava do imaginário. Eles nunca se pegaram, até certo dia...

- Tô tão chateado com a Dona Rita, ela não sai do meu pé! Até parece que sou aquele moleque irresponsável e não tenho trabalho, nem estudos pra dar conta... – Bernardo desabafava com Duda sobre sua mãe, ele odiava a cobrança de Rita para que seguisse a carreira do seu pai, um médico – Ela não entende que meu negócio são as especulações financeiras, o design gráfico, não a medicina! Eu desmaio com um corte no dedo, Duda!

- Deixa de ser um bebê chorão – Ela acariciou as pontas do cabelo escuro dele, tentando pensar no que falaria em seguida. Eduarda ficou impressionada com o amadurecimento do Bernardo e era a maior incentivadora da carreira dele no design. Ele sempre adorou isso, era nisso que se destacava – Fique firme na sua decisão, não deixe a sua mãe te influenciar. Você é muito bom no que faz, tenho orgulho de você.

Bernardo ficou um pouco distraído no começo, mas se surpreendeu com as palavras finais de Maria Eduarda. Ela não era de se abrir, de confessar o que sente. Ele ficou um pouco chocado, depois feliz. Adorava saber que era o motivo de orgulho dela, afinal ele também a admira muito por não ter desistido da carreira na moda, mesmo sem ajuda da família, e hoje ser uma estilista de grifes importantes.

- Você jura? – Ele perguntou baixinho, olhando nos olhos azuis dela e observando Duda corar sob a luz fraca do abajur que iluminava o quarto dele. Eles estavam na cama, Eduarda debruçada sobre Bernardo, que tinha as costas apoiadas nos travesseiros da cabeceira da cama.

- O quê? – Ela perguntou tentando parecer confusa, se arrependendo de ter deixado as emoções escaparem.

- Ah, você sabe do que eu tô falando. Não se faz de desentendida.

- É claro que eu sinto, seu idiota. Você é o meu melhor amigo, a minha única família... Isso é super normal! – Duda sentou bruscamente na cama, os olhos baixaram para os dedos entrelaçados nos de Bernardo.

Ele levantou uma das mãos e tocou as bochechas rosadas de Eduarda, fazendo ela estremecer. Eles jamais se tocaram assim, íntimos. Agora, adultos, nem se lembravam quando tinham trocado beijos no rosto. Duda sempre preferiu manter essa barreira, ela odiaria perder o Bernardo da sua vida por causa de impulsos físicos. Foi pensando na dor de perde-lo que tentou afastá-lo, dizendo:

- Bê, tá me estranhando? Você não p... – Bernardo calou Maria Eduarda com um dedo em seus lábios cheios, sentindo a maciez deles.

- Shiiiiii – Ele sussurrou, Duda estremeceu levemente – Fica calada. Fecha os olhos.

Ela obedeceu, mesmo relutante. Bernardo levou um curto tempo observando os cílios grossos dela repousarem sobre as suas bochechas e admirou seus cabelos cor de fogo caídos entre os ombros e emoldurando sua face. Ele jamais tinha parado pra observar assim, tão de perto, as feições dela. Ele nunca realmente parou e apreciou essa blusa preta rendada que se colava ao seu corpo, marcando seus seios do tamanho ideal.

Foi então que, sem parar para refletir, avançou sobre ela e seus lábios se chocaram em um estalo audível. Duda arqueou assustada, seu coração batendo em retirada para sua boca. Bernardo saboreou os lábios dela até que sentiu permissão para beijá-la de verdade, envolvendo as mãos em sua nuca e sendo correspondido.

Duda abriu os olhos por um instante e encontrou os dois círculos castanhos dele também abertos. Se comunicaram com o olhar, adorando a sensação proibida daquele beijo ardente e deram permissão um ao outro para deixar rolar. Ela deixou o lado racional de lado, ele também.

Juntos, apenas sentiram. Eduarda estava liberando seus impulsos guardados há tanto tempo, beijando aquele homem por quem tinha uma admiração sem precedentes. Bernardo nem respirava enquanto retirava a blusa dela e admirava o corpo de Eduarda. Linda, como ele sempre imaginou. Ele sempre tentou pensar na Duda como uma parceira, um melhor amigo... Mas nesse momento era difícil imaginá-la como menos do que uma mulher. Uma mulher que ele desejava.

- Eduarda... – Ele sussurrou em um tom sério, fazendo Duda abrir os olhos azuis e encará-lo com apreensão. Ele nunca chamava ela assim, pelo segundo nome completo.

- Isso não devia estar acontec... – Ela foi calada pelos lábios vorazes de Bernardo nos seus.

- Eu acho que pedi pra você ficar calada – Disse. Seus dedos correram pela barriga lisa dela, causando arrepios em ambos – Você é linda. Por que nunca fiz isso antes?

Eduarda se perguntava o mesmo no seu inconsciente. Resolveu parar de pensar e puxou Bernardo pela gravata, beijando-o de volta. O clima era pesado entre eles, o ar parecia pegar fogo e seus corações martelavam rapidamente no peito.

Então, como mágica, não houve mais palavras compreensíveis no resto daquela noite. Apenas descobertas. Eles se sentiram completos como nunca haviam sentido com qualquer outra pessoa antes... E era justamente isso que mais os apavorava.

A linha ficou muda depois da pergunta de Bernardo, pois Maria Eduarda respirava fundo e tentava repelir as cenas quentes em sua memória. Ela bloqueou o que tinha acontecido naquela noite, assim como Bernardo. Quando ele acordou naquela manhã fatídica, Duda não estava mais lá e restava apenas o travesseiro amassado, os lençóis frios e o cheiro do seu perfume.

Depois disso, não tinham se encontrado pessoalmente. Mantinham a comunicação por telefone, imaginando que a distância física os faria retornar à rotina de amigos para sempre. Eduarda foi quem mais insistiu pela distância, ela recusava a ideia de perder o Bernardo por causa de uma noite em que cometeram deslizes.

- E aí, não vai falar nada? – Questionou Bernardo enquanto admirava a lua cheia mais uma vez, ele se encontrava pisando em ovos com Maria Eduarda desde que tudo aquilo aconteceu.

- Na verdade, eu queria falar uma coisa... – Duda deixou escapar, eles precisavam conversar sobre aquela noite. Precisavam se ver, precisavam voltar ao que eram.

- Qualquer coisa, Du – Então Bernardo foi completamente carinhoso, desarmando Maria Eduarda.
- É sobre aquela noite, acho que a gente precisa conversar. Desencanar... – Sussurrou temendo a reação dele.

- Qual o seu problema, Duda? Por que não quer mais me ver? Está fugindo de sair comigo de novo... É tudo por conta daquela noite? Fala comigo. – Bernardo socou o volante, ele estava cheio de ignorar esse elefante branco.

- O que aquela noite significou pra você? – Ela roeu as unhas que estavam pintadas de preto essa noite e observou o ataque de Bernardo pelo vidro do seu carro. Ela viu que ele tinha estacionado pois também passava por ali, mas estava andando para clarear os pensamentos. Quando o viu, imediatamente resolveu ligar para sondar e ver se a coragem de ir até ele iria surgir.

- Eu não gosto da ideia de falar sobre isso pelo telefone... Por que a gente não se encontra? Eu vou até o seu apartamento, chego em alguns minutos... – Ele sugeriu e sentiu o arfar dela na linha muda, sem resposta – Por favor, Du, fala comigo cacete!  

- Na verdade... – Eduarda andou até o carro e parou na porta do passageiro – Abre a porta pra mim.
Bernardo franziu a testa sem entender, então ouviu a voz de Duda como se estivesse ali e se virou para sua figura parada na janela do passageiro. Ela sorria mordendo o lábio inferior, os olhos brilhavam e estava tão linda quanto nas suas lembranças. Ele abriu a porta e ela entrou, desligando o celular.

- Oi – Sussurrou, o ar dentro do veículo ficando pesado com o clima criado pelos dois.

- Como você sabia que eu tava aqui? – Bernardo questionou sorrindo tanto que nem conseguia controlar.

- Eu estava andando por aí e... – Ela articulou como se fosse óbvio e ele sacudiu a cabeça, a vontade de tocá-la era estranhamente forte. Que porra era aquela?

- Quer conversar? – Perguntou enquanto se ajeitava no banco, virando-se para fita-la. Duda tinha as mãos entre as pernas que estavam desnudas, ela vestia uma saia pequena e esvoaçante. Era incrível como conseguia fazer as mais doidas combinações de roupas funcionar.

- Responde o que eu te perguntei no telefone – Sua voz saiu séria, ela fitava Bernardo nos olhos com determinação. Essa era a Maria Eduarda que ele conhecia, não a que se escondia.

- É difícil dizer o que aquilo tudo significou pra mim, foi há uma semana atrás mas parece que aconteceu ontem. Ainda está cravado aqui, ó – Ele apontou para a própria cabeça – Nem consigo raciocinar direito.

- Eu me sinto da mesma forma, parece que... – Ela ficou toda vermelha, não conseguia pensar direito – Eu não sei, Bernardo, se conseguiremos ser o que éramos.

Sua sinceridade deixou Bernardo um pouco perplexo, ele sabia dessa verdade. Era imutável. Mas ele gostava da ideia do novo modelo deles que ambos criaram, juntos.

- Não precisamos ser como éramos – Ele arriscou ao sussurrar, pegando uma das mãos de Eduarda e apertando seus dedos com os seus. Ele percebeu quando uma lágrima sorrateira molhou a bochecha rosada dela.

- Então é isso? – Eduarda sentia seu coração tão minúsculo, ela odiava o que tinha feito. Eles comprometeram a amizade tão fiel que tinham há tanto tempo por causa de uma transa, ela se odiava nesse exato momento.

- Por que diabos você tá chorando, Du? – Bernardo perguntou alarmado, seus dedos voaram para secar as lágrimas de Duda – Você sabe que isso me quebra.

- Não é óbvio, porra? – Ela se afastou dele, tirando suas mãos de perto e o seu corpo também. Queria evitar a mágoa, queria evitar o momento que viria a seguir. A separação definitiva deles.

- Não, pra mim não é! – Bernardo se assustou com o afastamento dela e não hesitou, agarrando-a pela cintura e puxando-a pra si – Você não gosta da ideia de ficarmos juntos? Tipo, de verdade?

- Quê? – Ela se separou um pouco para olhá-lo nos olhos, sem acreditar no que ele dizia – Era isso que você queria me dizer? Pra a gente tentar?

- Não sabia que você abominava tanto o fato da gente tentar... é... namorar – Ele sussurrou com medo da palavra compromisso. Não queria assustar Eduarda, ela sempre odiou a palavra compromisso e ele mesmo também abominava... Até pensar em ver Maria Eduarda beijando outro homem. Nem por cima do meu cadáver!

- Você tá falando sério? – Ela tentou não acreditar no que ouvia. Bernardo, o cara de todas as mulheres estava propondo compromisso a ela? Justamente ela, a melhor amiga?

- Pela primeira vez na vida, sim. – Ele segurou o rosto dela com as duas mãos e a fez olha-lo nos olhos sem desviar – Eu não sei você, mas acho que não me sinto da mesma forma com relação a minha Du. Não consigo vê-la mais como um cara, de jeito nenhum! Ela virou a minha maior fantasia nas últimas noites...

Duda não conseguiu ficar quieta com aquela revelação, levando sua boca até a dele sem delongas. Gemeu baixinho com a sensação da língua dele novamente contra a sua, faíscas percorrendo todo o seu corpo.

- Vê se não fica falando essas coisa pra mim – Ela murmurou enquanto se ajeitava no colo dele, apertando a buzina do carro com as costas e fazendo ambos rirem da situação.

- Então tudo bem? Você quer também? – Ele mordiscou a bochecha dela, apertando seus quadris com as mãos. Adorava senti-la assim, tão pertinho.  

- O que você acha? – Piscou diversas vezes como resposta, seus pés procurando apoio naquela posição meio doida.

- Maria Eduarda... – Bernardo murmurou colocando uma mecha vermelha atrás da orelha dela, fazendo-a sorrir e voltar a morde o lábio carnudo – Quer ser a minha melhor amiga e algumas coisas mais? Quero dizer... A minha namorada? Quem eu vou poder beijar e pegar e mimar e...

- Olha a melação – Eduarda fez uma careta, mas depois desistiu e riu da cara de cachorro sem dono do Bernardo – Tá. Pode ser.

- Sempre marrentinha, né? Não perde a fama – Bernardo atacou os lábios de Eduarda e ela se deixou levar, o coração aos pulos e galopes. As mãos dele percorriam suas coxas, seu quadril e suas costas. Ela se derretia.

- Você me conheceu assim, se me quiser vai ser assim também – Ela parou para respirar, suas testas encostaram.

- Linda – Bernardo deu um selinho em seus lábios rosados, Eduarda nem conseguia acreditar que tudo aquilo estava realmente acontecendo.

- Será que isso vai dar certo? – Perguntou enquanto sorria para ele.

- Só o tempo dirá, Du...

E eles ficaram ali, no meio da noite de Copacabana, onde um amor gigante e forte crescia. Onde um laço era feito. Onde vários sentimentos ainda não eram compreendidos.

Não há garantias nessa vida, afinal.

O que nos resta é viver.


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